O mercúrio no Escudo das Guianas

A mineração e comércio do ouro traçou uma marca profunda, uma linha vermelho-sangue na história da América Latina, desde que os conquistadores espanhóis submeteram as populações nativas a um reinado violento, na busca pelo El Dorado.

Hoje, o ouro ainda é

uma força econômica que move os países localizados no Escudo das Guianas, uma formação geológica de 1,7 bilhão de anos, sob as vastas florestas tropicais da Guiana, do Suriname, da Venezuela, da Colômbia e do Brasil. Mas o comércio de metais preciosos é amparado por um setor obscuro que poucos conhecem: o mercado do mercúrio, ele próprio uma indústria multimilionária.

O elemento químico Hg,

mais comumente conhecido como mercúrio ou azougue, é um dos pilares do mercado mundial de ouro. É amplamente usado na mineração de ouro de pequena escala, porque é um jeito barato e de baixa tecnologia de agludinar o ouro fino, díficil de ser capturado nos solos lamacentos.

Quando adicionado ao sedimento,

ele se liga às fagulhas de ouro para formar um amálgama. O mercúrio é posteriormente queimado, deixando apenas o ouro. Em média, os garimpeiros utilizam três gramas de mercúrio para produzir um grama de ouro, mas esses números variam muito, dependendo da técnica aplicada. Nas operações de mineração de pequena escala, praticamente todo o mercúrio usado é liberado para o meio ambiente.

O mercúrio é uma das 10 principais substâncias químicas

que representam uma grande ameaça à saúde pública, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Pequenas quantidades de mercúrio no corpo humano podem provocar dano cerebral, insuficiência renal e defeitos congênitos.

A maioria dos 10 a 20 milhões de garimpeiros

ao redor do mundo que trabalha em pequena ou média escala no setor de mineração de ouro usa o tóxico diariamente. Ele também polui os rios e se acumula na cadeia alimentar, impactando os ecossistemas e as populações distantes do próprio garimpo.

A mineração de ouro representa 37 por cento das emissões globais antropogênicas de mercúrio.

Em 2017, foi adotado um tratado global

que visa a reduzir a poluição por mercúrio, o Convênio de Minamata. Hoje 123 países fazem parte da convenção, que busca reduzir e, quando possível, banir o uso do mercúrio na mineração de ouro.

Embora existam alternativas,

até agora os tomadores de decisão falharam em fornecer aos garimpeiros da Amazônia, que dependem do mercúrio para produzir ouro de forma eficiente, ferramentas e treinamentos de que necessitem para abandonar ou reduzir o uso do metal líquido.

Entre 70% e 80% desses garimpeiros

estão presos em um ciclo de pobreza, trabalhando em operações de mineração informais e não licenciadas, onde muitas vezes são forçados a usar mercúrio pelos proprietários do projeto ou pelos comerciantes. Sem alternativas viáveis, um mercado ilícito de mercúrio floresceu, alimentado por grupos do crime organizado, por redes de traficantes e por interesses corporativos ocultos.

Para entender o submundo do mercúrio

, viajamos para as florestas da Amazônia com uma equipe internacional de jornalistas. Nós nos reunimos com especialistas, comerciantes, traficantes e garimpeiros, perseguindo o metal líquido em centros comerciais nas cidades litorâneas, ao longo das rotas de tráfico e através das fronteiras e em minas isoladas na densa floresta tropical. Descobrimos que o ouro extraído ilegalmente seguia as mesmas rotas para fora da selva e, enquanto os garimpeiros eram processados por causa do uso de mercúrio, os intermediários ficavam ricos.

O senhor Wee Wee, um advogado dos garimpeiros

do Suriname, explica que, apesar dos riscos, muitos mineiros não têm outra opção a não ser continuar trabalhando com o azougue. "Se você quer tirar a faca das mãos de uma criança, é preciso substituí-la por um graveto ou um brinquedo", diz ele.

Sobre o projeto

“MERCÚRIO” é uma produção da InfoAmazonia, uma rede de jornalistas que investiga as principais questões ambientais nos nove países da Amazônia. A investigação foi conduzida em quatro países durante um ano. O trabalho foi feito em parceria com jornalistas da Armando.Info na Venezuela e Fantástico (TV Globo) no Brasil. Junto a uma plataforma especial, vamos lançar um documentário dirigido por Tom Laffay.

Toda a produção foi apoiada pelo Rainforest Journalism Fund do Pulitzer Center e pela "IUCN (International Union for Conservation of Nature) National Committee of the Netherlands (IUCN NL).

Versões das matérias também serão publicadas por Knack (Bélgica), Stabroek News (Guiana), De Ware Tijd e UnitedNews.sr (Suriname), além das matérias de nossos parceiros no Brasil e Venezuela.

Project team

Investigador principal

  • Bram Ebus

Reportagem

  • Fabiano Villela (Fantástico-TV Globo)
  • G. I. Sutherland (Stabroek News)
  • Fábio Diniz (Fantástico-TV Globo)
  • Marcelo Marques (Fantástico - TV Globo)
  • Marcos David Valverde (Armando Info)
  • Sam Cowie (InfoAmazonia)
  • Sônia Bridi (Fantástico TV Globo)
  • Wilfred Leeuwin (De Ware Tijd)
  • Tom Laffay (InfoAmazonia)

Coordenador do projeto

  • Gustavo Faleiros (InfoAmazonia)

Editora chefe

  • Kate Wheeling (InfoAmazonia)

Editores

  • Cristine Kist (Fantástico - TV Globo)
  • Ewald Scharfenberg (Armando Info)
  • Fillipi Nahar (Fantástico - TV Globo)
  • Gustavo Faleiros (InfoAmazonia)
  • Patricia Marcano (Armando Info)

Produtores

  • James Alberti (Fantástico - TV Globo)
  • Mônica Reolom (Fantástico - TV Globo)

Videos

  • Erik Von Poser (Fantástico - TV Globo)
  • Luiz Felipe Saleh (Fantástico - TV Globo)
  • Rafael Norton (Fantástico - TV Globo)
  • Tom Laffay (InfoAmazonia)

Desenvolvimento Web

Traduções

  • Angelica Baldelomar (English)
  • Jerusa Rodrigues (Portuguese)
  • Melanie Morazzani de Casanova (Spanish)

Mídias sociais

  • Laura Clisánchez

Equipe do documentário

Direção e fotografia

  • Tom Laffay

Investigator principal

  • Bram Ebus

Produtor

  • Gustavo Faleiros

Editor

  • J.C. Van´t Kruis

Reportagem

  • Tom Laffay
  • Gaulbert Sutherland
  • Wilfred Leeuwin

Narração

  • Abel Harris

Animação

  • Sérgio Castro

Design de som

  • J.C. Van´t Kruis

Consultora criativa

  • Emily Wright

Segundo editor

  • Tom Laffay